Imaginações gordocentradas para o fim do mundo

Escrevo pela miséria, como uma carta que não chega ao fim e nem será lida pela destinatária. Os efeitos práticos, como o título deste texto, é celebrar a urgência e a potência destrutiva da criação.  Nesse momento que escrevo, há uma passagem de um texto de Glória Anzaldúa (2000, p.232) que aciona um looping em minha memória. A escrita, diz Anzaldúa, salva da complacência que amedronta. Adicionaria que da insegurança que nos abomina e nos saqueia.  “Porque o mundo criado na escrita compensa o que o mundo não me dá”, diz Glória.  E prossegue: “No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo […] Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever”. Pelas palavras de Glória, persigo o questionamento sobre como escrever aquilo que não tem forma. Toda palavra é miúda na tradução, nos escombros do apocalipse.  

Ao ser lida, essa carta passará por uma primeira informação basilar: afinal, quem a escreve? A quem é que se atribui o status de escritora? E aí, se grifo que sou uma pessoa negra-gorda-transgênera-pobre-do nordeste brasileiro, logo, alguém será inundado pelos questionamentos de qual pronome utilizar (1), se me faltou melanina ao ser criada (2), se tenho um teto para morar (3) ou se estou buscando alguma salvação (4). Que virá então o tempo do senhor e todas estarão salvas do bueiro onde fomos postas.Muitas vezes tenho ouvido, em grande maioria de homens gordos cisgêneros homossexuais brancos de classe média sulistas/sudestinos, sobre o sentimento de segurança ao estarem em relações com parcerias gordes. De algum modo, a gordofobia largamente disseminada, poderia em alguma medida ser menos dolorosa nos braços de outra pessoa gorde.  Em 2019, por um instante, seduzida por essa imagem, dei-me conta de que viver afetos gordes significava uma perspectiva de reimaginação. Saíra do nordeste brasileiro, de uma capital e não do sertão – como alguns propõem, me deparando com um oceano de possibilidades. 

Ilustração: Renata Ragazzo – @rety_ragazzo

Pesca farta para todos os lados e eu estava faminta. Uma vida faminta.  Busca por um lugar do encontro. Neste lugar, suposto do encontro, haveria troca. Contudo, a troca prediz igualdade ou minimamente tradução. Tremi uma vez mais quando, rotineiramente, fui convidada a estar presente na cama. Não com os amigos, mas pelo escuro, escondido, distante. No fim da noite, para algo rápido. Sem penetração, porque envolve  muito trabalho lidar com aquilo que não está na indústria pornográfica, entende? E a cartada final, ali antes de meu aniversário: “Desculpa, minha ansiedade não suporta mais efeitos do seu corpo quebrado. A oficina de reparo é para o outro lado. Já sarei meu corpo, afinal, diferente de você, eu sou um homem. Um homem gordo branco do sudeste”. Adicionaria que só pensar gordocentrismo não basta. Ali onde chega o espelho torto, confuso da gordofobia, também chega o racismo, sexualização, erotização, roubo de subjetividades. Colonização do coração. 

 Ultimamente passei a ganhar nomes como fofinho, fofinha, boba, bobinha, doce e gentil. Chiquérrimos. Até minha língua estalar no centro da boca, meus olhos ficarem vermelhos e esticar meus dedos. Num automatismo, me transformo na raivosa, violenta e autodestrutiva que não quer diálogo. Hiper erótica até não existir mais nada que só desejo (colonial nas minhas ancas). Várias queixas, pouca escuta. Como se os problemas de posicionalidade se resolvessem com enunciação. Spivak (2018) me guarda. 

De diferentes modos, ao refletir sobre a vida afetiva e conversar com pessoas negras gordes, pude perceber como o suposto vácuo e solidão de vidas gordes negras, em verdade, diziam respeito a uma necro-trans-política gordofóbica, carimbada estruturalmente como colonialidade, que se esconde na inocência dos que, buscando diferenciar-se, enxergam em meu corpo negro gordo uma chance. Chance de acolhimento, mas igualmente de trampolim político.  A negação de qualquer subjetividade que não aquela do script já desenhado no: gordo é assim, né? quem vai te querer assim? ou ainda o extravismo que se reveste de escuta: “mas então, aqui o lugar de fala, pode usar”. E na segunda frase, o veredito sobre estarmos longe do script aguardado, que não era bem isso que estava se aguardando. A dissociação entre fala, emissor e sujeito ilegais.  E minha triste confissão de que tenho jantado bons super-heróis pela manhã. Um a um vão falhando. Não acompanham o ritmo da criatividade ou se espantam quando seus poderes lhe são tirados. Alguns batem em meu ombro, visitam minha cama e na manhã seguinte pedem que lhe dêem os créditos pelo cu dado. 

 Corpo preparado para destruir-se. Prenúncio de que morrerei sempre de um infarto, jamais provocado por um quadro psíquico de adoecimento (ser pobre adoece, sempre bom lembrar) ou que tudo se encontra resolvido com uma dieta. Afinal, é possível questionar: quem ampara a bicha preta gorda quando a sanidade já não é mais um presente? Jota Mombaça (2016) escreve que a dádiva é também maldição. Deslocamos o mundo, enquanto vamos rotineiramente nos destruindo. Achile Mbembe (2018) comenta que Foucault se esqueceu da biopolítica que produz corpos zumbis, ainda vivos mesmo depois da morte. Esses corpos que ressoam infinitamente como lembrança de uma morte pronunciada. Vidas com data de validade já expirada. Contudo, isto não é um clamor por comunidades intersubjetivas, mas sim que nossos nomes não sejam esquecidos. E nem tão pouco as conquistas diárias, os passados subterrâneos e os futuros anunciados. 

Mas se é possível dizer da destruição, de algum modo, é possível questionar sobre os presentes possíveis. Sobre aquilo que se encontra aberto quando questionamos e narramos relações a partir de ser uma corpa gorde. Esse rápido comentário, em verdade, não se finaliza com um ponto final. O que proponho, na verdade, é seguir a expansão. Expandir, multiplicar. Aí uma questão: quais as potências possíveis de uma perspectiva gordocentrada para pensar os afetos que nos atravessam? E uma segunda questão:  se nem todas parcerias envolvem necessariamente um gordocentrismo, quais possibilidades estão avisadas em assumir um gordocentrismo como perspectiva? Uma última: é possível pensar gordocentrismos desde as diferentes etapas do processo colonial?

O que me sobra ao fim dessa carta é que tudo e nada. Numa eterna dança em espiral, criar espaços seguros de crescimento e desabrochamento levam gerações inteiras. Abrir caminho é reconhecer que nosso presente é o sonho das velhas que nunca morrem, mas retornam como luz para o futuro. Jamais sozinhas. O que dizem ser felling, traduzimos como intuição ou o coração apontando o caminho a ser seguido. 

Presente é arquitetar a ação.


Texto de Rangel do Nascimento

Rangel do Nascimento – Preta, fluindo entre os gêneros, de Alagoas no nordeste brasileiro,  de candomblé e Òsún (Odô ti Ojò). Ensaiando novos presentes pós-coloniais na prorrogação do fim do mundo. Bacharel em Cientista Social e Mestrando em Sociologia. Gordocentrismo enquanto perspectiva política dos corpos e afetos. Paixão por culinária, diferentes oráculos e o oculto. Nas horas vagas, cartomante, catimbozeira. Nas margens do mundo.   Meu ig no instagram é: @oxirangel.

Publicado por r4ang3l

Rangel Ferreira. Preta, fluindo entre os gêneros, de Alagoas no nordeste brasileiro, de candomblé e Òsún. Ensaiando novos presentes pós-coloniais na prorrogação do fim do mundo. Bacharel em Ciências Sociais e Mestrando em Sociologia. Gordocentrismo enquanto perspectiva política dos corpos e afetos. Paixão por culinária, diferentes oráculos e o oculto. Nas horas vagas, cartomante, catimbozeira. Nas margens do mundo.

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