O senso comum e o corpo gordo

Divine – Graziano Origa/CC BY 3.0

– A pessoa “obesa” é aquela que geralmente desconta suas frustrações na comida

A pessoa “obesa”, daquelas bem grandes e mórbidas mesmo, é aquela que come quantidades absurdas de comida, compulsivamente

– A pessoa “obesa” pode ter seu excesso de peso justificado por relações interpessoais frágeis ou inconsistentes e, por isso, desconta tudo na comida

– Vejam no CID da obesidade: geralmente, essas pessoas (gordes) possuem problemas sérios para se relacionarem consigo mesmas e com os outros


As afirmações acima, para quem estuda ou milita dentro do Universo Gorde, parecem ter saído de um discurso datado de ódio de algum desinformado qualquer, que não conhece, não gosta e não tem intenção alguma de se aprofundar sobre ou respeitar o corpo gordo. Teima em classificar, sem conhecimento científico prévio, corpos gordos como “obesos”, indicando que absolutamente desconhece os inúmeros apelos de médicos, nutricionistas, psicólogos e outros profissionais da saúde que de fato estudam o corpo gordo para que a doença “obesidade” só seja utilizada para descrever corpos que, de fato, estejam doentes. Regra básica para o ano de 2021: se não é doente, não é obeso. É gordo. Vamos para a próxima?

Se ainda sobra dúvida acerca do prejuízo contido nas sentenças, experimente um exercício mental: imagine um corpo magro. Não pode ele também ter problemas interpessoais, com frustrações de toda sorte, em todas as fases e esferas da vida, ou mesmo desenvolver compulsão alimentar, dessas de arrebentar o estômago? Não pode o corpo magro desenvolver transtornos alimentares por conta de má alimentação, comida em excesso etc. etc. etc? Creio que, para essas perguntas, apenas bom-senso já é resposta.

Para surpresa de alguns, as frases descritas no início do artigo, pinçadas de um apanhado de uma hora e meia de declarações preconceituosas, rasas e completamente sem fundamento, saíram da boca de um professor universitário, psicólogo, que no momento em que as proferiu ministrava uma aula para mais de 150 alunos sobre… Psicopatologia.

O que o cidadão fez, ao invés de informar a respeito de sintomas físicos e psicológicos de pessoas em sofrimento com transtornos que nada tinham a ver com o corpo gordo na ocasião do discurso – que explicava, entre outros, transtornos graves como a bulimia e a anorexia –, foi um apanhado de classificações de seu parco repertório pessoal (e profissional, pelo visto) para patologizar os corpos gordos. Como se precisássemos de mais desinformação e mais preconceito, dentro da Academia.

Se algum aluno se sentiu ofendido ou sequer percebeu tamanho preconceito contido em cada uma das afirmações? Sinceramente, penso que estamos longe de conscientizar a população, magra ou gorda, a respeito da violência de discurso a que estamos submetidos diariamente. Um comentário aqui, um “conceito errado” ali, uma opinião esquisita acolá. E a maioria só consegue classificar a dor, o desamparo e a revolta dos corpos gordos como “mimimi”, aquela dorzinha que ignoro por só doer no outro.

Até quando vamos continuar desviando o olhar, temendo encarar as pessoas, a sociedade, seu preconceito enraizado e institucionalizado? Não está mais do que na hora de dizer, em alto e bom som, BASTA?

Neste meu artigo inaugural para o blog, convoco todes vocês: em cada palavra, cada ato, cada texto e cada chamamento, é preciso estarmos atentes. E prontes para o combate.


Texto de Luana Orlandi

Jornalista, estudante de psicologia, natural do interior paulista e moradora de São Paulo capital há 14 anos. Apaixonada por filosofia, cinema, gatos, cachoeiras e boa comida, é novata como colaboradora/conteudista do Universo Gorde. Entretanto, desde a infância observa e entende a #gordofobia como forma de opressão e anulação de vivências integrais e plenas de todos os corpos. Neste espaço, pretende propor reflexões acerca de preconceitos, barreiras e a problemática que envolve o viver gordo contemporâneo.

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