Jornalista gorda existe?

Hoje, 7 de abril é comemorado o dia do jornalista. Convidamos a jornalista e ativista Agnes Arruda para compartilhar a vivência dela como mulher gorda e jornalista.


Com o conhecimento que tenho hoje, olho para trás, para o tempo da época da faculdade de Jornalismo, e nem me leio como gorda. Era, de fato, maior que as colegas de turma, mas bem menor do que sou agora. No entanto, a gordofobia é tão marcante, que mesmo 40 quilos menos isso determinou toda a minha formação e carreira que vieram a seguir.

Era início dos anos 2000. A internet estava começando a mostrar para que veio e a televisão ainda era o meio mais almejado de trabalho… Menos para mim, que sempre acreditei que me daria melhor com o impresso, e foi o caminho que segui, sem me dar conta que não fui eu que tinha feito aquela escolha; escolheram por mim “porque eu não tinha o perfil para TV”.

Isso fica claro, quando olho em retrospecto para essa história, ao notar que os professores pouco me estimulavam nas aulas de telejornalismo e me atribuíam funções de bastidores… Pauta, roteiro, produção… Que eu executava com brilhantismo e, com isso reforçava que AQUELE era meu lugar.

Na época circulava como boato de que a apresentadora do principal telejornal local havia sido demitida da emissora, uma das principais afiliadas Globo do país, porque não havia conseguido retornar ao peso de antes da gestação em sua volta de licença maternidade.

Para todos os efeitos, o que se dizia – e o que eu pensava – era que a emissora estava certa, mesmo! “Quer aparecer na televisão? Tem que se cuidar!”. E mais uma vez ficava claro que, nas telas, gente como eu não deveria aparecer.

Mas o que era boato se tornou notícia quando a apresentadora que substitui a anterior no cargo, anunciou que perdeu o emprego pelo mesmo motivo… Quase 20 anos depois! A diferença, no entanto, é que estava agora escancarado o absurdo.

Quantas mulheres da minha geração não acreditaram que, por falta de representatividade, muitos lugares não eram para elas? Quantas gordas foram preteridas, a despeito da competência, em seus postos de trabalho? Que padrão é esse que faz com que seu destino seja traçado sem que ao menos você se dê conta disso? E o mais importante: quem constrói esse padrão?

Foi com essas – e algumas outras – perguntas, cujas respostas ainda estão em construção, que passei a ressignificar toda a minha existência. Na gordosfera, encontrei um espaço de acolhimento e de representatividade, e contando a minha história, inclusive em vídeo e para todo mundo ver, descobri também que ela era a história de muitas – de tantas – outras, que também estão ressignificando a si próprias.

Hoje dou as mãos para aquela jovem que estava lá atrás, repito para ela que competência não se pesa, e que gordo, por mais que o mundo diga o contrário, gordo é lindo.

©️Isabele da Costa (Fotógrafa Autoral)

Texto de Agnes Arruda

Jornalista, mestre e doutora em Comunicação. Sempre soube que era tratada diferente por causa do tamanho do seu corpo. Quando entendeu que o problema não estava nela, mas sim na gordofobia, nunca mais viu o mundo da mesma forma. Hoje dedica-se a investigar e a denunciar a relação da gordofobia com a mídia, extrapolando as barreiras da comunidade acadêmica, com o projeto Tamanho Grande, disponível como canal no YouTube, perfil no Instagram e também em podcast.


Direção de Arte e Fotografia de Isabele da Costa

FotoAtivismo contra a Gordofobia

©Isabele da Costa (Fotógrafa Autoral) / Todos os direitos reservados – Copyright – Reprodução extremamente proibida

Todas as fotos dessa postagem estão protegidas pelo art. 7º, inc. VII da Lei do Direito Autoral Nº 9.610, de 19 de Fevereiro de 1998. Havendo interesse (quaisquer que sejam) nessas imagens, gentileza entrar em contato com a autora. Caso for compartilhar ou divulgar em outro espaço, credite devidamente.

Instagram: @isabeledcosta – https://www.instagram.com/isabeledcosta

E-mail: isabeledcosta@gmail.com

Publicado por itstamyres

Tamyres Sbrile é jornalista, criadora de conteúdo, escritora e ativista. Ela aos 24 anos começou em 2019 produzir conteúdo no @itstamyres falando sobre amor próprio, autoconhecimento e Gordofobia. Nascida e crescida em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, encontrou na internet uma maneira de ressignificar e entender questões como sendo uma mulher gorda. Usa as palavras para expressar sentimentos e vivências que marcaram a história dela.

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