Logo eu?

Juro que por mais que eu tente eu não sei entender e muito menos explicar porque uma das primeiras reações das pessoas ao corpo gordo é o riso. Me conta, qual é a graça?

É como se fôssemos uma piada pronta só por existirmos. Estamos ali, tendo a audácia de sermos gordos em público, uma insolência. Pra sociedade é tão óbvio nos rejeitar, nos esconder, fingir que a gente não existe, que quando eles percebem que nós não nos escondemos, que estamos aí existindo, parece um absurdo. Um absurdo risível feito alguém que saiu de casa com a cueca por cima da calça igual o superman. Como assim você é gordo e não quer se esconder?

Logo eu? Logo eu, cujo direito à piada foi roubado na mesma medida em que fui obrigado a engolir a piada em si. Riem de mim. Isso me degrada tanto que vou aos poucos cortando pedaços da minha própria experiência geral pra não entrar em contato com esse olhar alheio. A cidade vai ficando aos poucos cheia de rótulos de proibição. Quem vê de fora, quem não é gordo, acha subjetivo quando eu digo que são proibições, não tem como medir o quão concreto é de fato o que o meu corpo vive se você, pra início de conversa, não considera ele válido. São proibições.

Fui ficando aos poucos enojado de adolescentes. Sempre que passava por um grupinho, era uma chuva de comentários sob aquela meia tentativa de disfarçar, mas não se aguentando na própria piada ao me ver. Fui me enojando dos homens e suas piadas ruins e cantadas ainda piores. Ouvi tanto sobre o meu tamanho na rua que fiquei paranoico. Insustentável. Por que que eu não consigo simplesmente existir, passar na rua, executar minhas funções sem o constante apontamento do meu corpo? Da onde vem a necessidade de imprimir opinião constantemente sobre o meu corpo como se fosse uma simples consequência de ser assim, vou virar piada e pronto. Por quê? Qual é a graça?

Crédito: Gigi Reis – direito de uso cedido ao Lute como uma gorda – Reprodução proibida
Muito prazer! Eu sou a contradição que te impõe a analisar uma nova condição. Um tanto atrapalhada, um tanto engraçada, Um tanto charmosa…
Mas no entanto, Não sou respeitada.” -Gigi Reis .

Fui me enojando da TV, das novelas e programas de humor como a Zorra Total e a doutora Lorca, nutricionista gorda que comia compulsivamente e escondia comida em todo canto no seu consultório, receitava dietas hipercalóricas pros pacientes magérrimos que lhe consultavam tentando ficar mais magros ainda. Ali estava a piada: uma nutricionista gorda com nome de baleia, uma gorda ensinando ao magro como comer. Como se só por ser gorda, ela é a antítese do que é saudável, do que um nutricionista é e faz. Um quadro 100% inventado, uma realidade feia de tão distorcida pra caber numa piada que depende de me degradar pra fazer sentido. Qual é a graça?

Fui ficando enojado dos meus amigos. Comiam feito norte-americanos, fast food toda semana, muita fritura e gordura, quase nada de frutas e vegetais. Amigos magros cuja dieta era basicamente café, cigarro, miojo, salgado no centro, coca-cola e chocolate. Riam com gosto da Dra. Lorca da Zorra todo sábado. Chegavam me chamando de Dra. Lorca na escola na segunda e dizendo ser pro meu bem, pra eu me incomodar e buscar perder peso pra ficar saudável, “bullying construtivo” (isso sim é uma piada). Logo eu? Que consumo vegetais em todas as refeições, em cuja casa comer assim é hábito de todos, que chego a passar mal com comida gordurosa, que fui ao MC Donalds uma única vez na vida e odiei. Eu não comia aquilo, muito menos SÓ aquilo. Qual é a graça da piada?

Fui me enojando das praças de alimentação, das mesas confortáveis de restaurantes, dos banquinhos das lanchonetes e aprendi a só pedir pra levar. Toda vez que compro comida em maior quantidade fico tão constrangido que acabo mencionando que estou levando aquilo pra mais gente, pra que a pessoa do caixa não pense que vou comer tudo sozinho feito um mukbang, mas ela provavelmente já está pensando. Eu consigo ouvir claramente as pessoas me dizendo “como você ousa comer, adicionar mais nesse corpo antes de queimar o que já tá aí?” só com o olhar delas. O gordo se alimentando em público é de certa forma ao mesmo tempo piada e repulsivo, certamente proibido. Um belo dia você sai pra comer aquele sushi que você ama no shopping, no outro viraliza na internet num vídeo seu enquanto comia editado de 200 formas diferentes pra te deixar ridículo. Você aprende a levar o sushi pra casa, a comer escondido, comer no fundo do ônibus sozinho pra não ser visto. Você troca o conforto na hora da refeição pela segurança de não ser publicamente humilhado, de não ser fotografado pra ilustrar artigos pseudocientíficos sobre obesidade, pra não aparecer na TV, só um corpo gordo sem cabeça atravessando a rua no jornal da hora do almoço durante a reportagem sobre hipertensão e diabetes. Me enojei das câmeras. Procuro pela câmera da reportagem sobre obesidade sempre que ando no centro. Logo eu que tenho colesterol baixíssimo, boa massa muscular, glicose ótima, pressão arterial perfeita. Faz algum sentido?

Fui me enojando dos médicos e de suas piadinhas. Me enjoei do problema crônico não tratado porque toda vez que vou ao fisioterapeuta, ortopedista ou ao endócrino, a consulta consiste em um sermão de uma hora sobre como meu peso vai me matar, como eu nunca vou realizar nada, como vou passar a vida de cama precisando de ajuda pra tomar banho se eu continuar “comendo assim”, sem nem saberem o que eu como. Os médicos não me oferecem o tratamento que eu preciso pois ninguém acredita que eu não sou sedentário, mesmo com a massa muscular provando isso, afinal, a meta do exercício físico pra alguém como eu é obviamente emagrecer, então falhei ou menti. Fui me enojando das academias e dos magros viciados em musculação que acham que se exercitar é uma imensa superação de vida que lhes confere poderes sobrenaturais, ou lhes coloca acima dos outros numa hierarquia totalmente delusional, que só funciona na cabeça deles. O gordo na academia tem seu processo desrespeitado na entrada. Me enojei de como me olham quando entro, não sou bem vindo no lugar onde mais me mandam ir. Logo eu que pratico os mesmos exercícios, no mesmo local.

Ninguém ENXERGA o corpo gordo. Ninguém sabe o que ele pode fazer, como ele se move, como ele se comporta, como ele se sente, qual sua textura. O odiado e o ridículo têm em comum serem desconhecidos.

Meu corpo tem dobras, voltas, tem texturas, é afetado pela gravidade, tem peso, tem cor, ele existe e pode ser visto. Meu corpo tem todas as possibilidades que eu quiser que ele tenha. Se eu quiser eu danço, se eu quiser eu mudo, se eu quiser eu continuo como estou. Eu não devo absolutamente nada ao que o senso comum decidiu que era certo, eu não fiz parte dessa escolha. Eu não devo a minha saúde a ninguém, inclusive. Ninguém tem o direito ou a liberdade de opinar nas minhas escolhas, principalmente quando essa pessoa nem conhece minhas escolhas, apenas supõe. Se a sua pergunta ao me ver for “como será que ele engordou?”, como se o meu corpo fosse uma cicatriz de um acidente traumático, por favor, não me dirija a palavra. Eu não sou um trauma. Engordar não terminou minha vida. Ser gordo não é minha fase de transição, não estou tentando superar minha forma física. Eu estou existindo como sou e só. E eu tenho esse direito, não me interrompa.

Publicado por Pieta Poeta

Escritor, músico, professor, campeão mundial de poesia falada (SLAM Poetry), natural de Belo Horizonte, homem trans não binário.

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