O DIA MUNDIAL DA OBESIDADE É GORDOFÓBICO!

Neste 4 de março, “comemora-se” o “Dia Mundial da Obesidade”. De acordo com o site oficial do Governo Federal junto à Organização Mundial da Saúde (OMS), a data cria soluções para auxiliar as pessoas a alcançarem e manterem um peso “saudável”, revertendo uma suposta “crise da obesidade”. Nos últimos 20 anos, toda a América Latina passou a indicar um aumento do sobrepeso e dos diagnósticos de obesidade. Com isso, alguns estudos passaram a associar a obesidade à mortalidade por câncer, diabetes e doenças cardiovasculares.

Existe um longo e controverso debate nos campos da medicina, da saúde pública, estudos culturais, filosóficos, antropologia da saúde e da sociologia médica sobre a patologização dos corpos gordos. Apesar de as conclusões serem muito diversas, o discurso médico ainda é uma ferramenta decisiva de regulação da vida em sociedade. Foram esses discursos embasados na medicina, de enfrentamento da gordura como “grande vilã” da modernidade – ao invés de incentivo a uma investigação profunda das causas motivadoras da aceleração do ganho de peso da população mundial, como a industrialização, a mudança de hábitos alimentares ou ainda a urbanização – que  justificaram a exclusão e patologização do corpo gordo.

Hoje, assim como há décadas, um corpo é diagnosticado como “obeso” levando em consideração fundamentalmente o seu Índice de Massa Corporal (IMC). Por essa lógica, segundo o IBGE (2019), um em cada quatro adultos do Brasil está obeso. E pelos dados do Preventing Chronic Disease (2019), a cada sete minutos morre uma pessoa obesa no Brasil. O estudo deixa explícito que muitas dessas mortes não estão associadas ao excesso de gordura em si, e sim em decorrência de outras doenças que também acometem não gordos. 

As pesquisas famosas, e muitas ultrapassadas, que mais circulam sobre obesidade não mostram que pessoas gordas morrem pelo descaso social com o corpo gordo. A gordofobia mata mais pessoas do que a própria “obesidade”.

Ilustração da série “Insurgências Gordas”, um projeto de Jéssica Balbino @jessicabalbino_ e Alexandre De Maio @alexandredemaio, em colaboração com o Catraca Livre.

Sem nenhuma romantização, existe sim um estigma violento sobre os corpos gordos. Por não corresponder ao que é tido como “natural” ou “normal”, a pessoa gorda é encarada em todos os lugares e relações sociais como preguiçosa, doente, fracassada, desleixada, fraca, suja. Mas isso parece não interessar ao debate atual sobre obesidade e saúde real dos corpos gordos.

Como, então, podemos calcular quais são os prejuízos à saúde causados pelo excesso de gordura? Nesse cálculo, o que se entende por saúde? Em 1948, a OMS definiu “saúde” como a busca por “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”. Estar preocupado com a saúde do corpo gordo precisa ultrapassar as barreiras numéricas. O IMC maior ou igual a 30 kg/m2 não significa que esse indivíduo estará sem saúde – pensando no sentido amplo do conceito -, ou sem condições de realizar atividades da vida cotidiana. É preciso haver investigação e diagnóstico completo para aferir se determinado corpo, gordo ou não, é saudável ou doente – essa avaliação não deve ser realizada com base apenas em um índice ultrapassado ou em um exame clínico, visual e baseado em preconceitos socialmente e culturalmente construídos.

Comunidade científica

Em março de 2020, especialistas e instituições médicas do mundo todo trouxeram em um estudo publicado pela Nature Medicine uma declaração afirmando que a comunidade médica precisa urgentemente rever a ideia de patologização dos corpos gordos. E demonstrando como esse atendimento negligente, moralista e preconceituoso traz consequências graves para as pessoas gordas, tais como ansiedade, isolamento social, estresse, transtornos alimentares, uso de álcool e drogas, suicídios. O estudo atesta que estas, sim, são doenças relacionadas diretamente à gordofobia sofrida cotidianamente. 

Em agosto de 2020, o estudo “Obesidade em adultos: uma diretriz de prática clínica”, assinado por mais de 100 profissionais de saúde canadenses, foi publicado pela renomada Revista CMJA Open, pedindo a revisão imediata do CID da obesidade e, talvez, mesmo sua exclusão. O documento propõe uma maneira mais humana para tratar os corpos gordos, levando em consideração suas variações e necessidades, não um número de IMC. O mesmo artigo pede que a mídia assuma suas responsabilidades e pare de fortalecer a ideia de que todas as pessoas gordas são doentes, atribuindo a obesidade a atitudes de responsabilidade individual.

Ilustração da série “Insurgências Gordas”, um projeto de Jéssica Balbino @jessicabalbino_ e Alexandre De Maio @alexandredemaio, em colaboração com o Catraca Livre.

Mídia e estereótipos

É mesmo importante que a mídia seja responsabilizada e seu conteúdo veiculado, repensado, pois, todos os dias, pessoas gordas ainda são representadas como grandes consumidores de fast-food, descontrolados, sedentários e preguiçosos. Esses estereótipos que vemos na TV e nas grandes redes televisivas, midiáticas, acabam reforçando o entendimento dos médicos nos consultórios, e o que presenciamos/escutamos nos consultórios, reforça a mídia preconceituosa. Um ciclo vicioso de horror para as pessoas gordas.

Então, para que esse Dia Mundial da Obesidade seja menos gordofóbico, precisamos cobrar e investir no maior preparo dos profissionais e estabelecimentos de saúde. Precisamos exigir que não se tente emagrecer uma pessoa às custas de humilhação e invisibilização de suas existências. É preciso que ninguém mais permita que uma pessoa gorda seja atendida, quando é, com falta de dignidade.

Mais urgente que diminuirmos o IMC da população, é salvar vidas e valorizar o acesso de todo cidadão à saúde de forma igualitária, sem diferenciações e pré-julgamentos. É exigirmos políticas de acessibilidade, auxílio e cuidados com pessoas gordas, para que parem de nos desumanizar.

Hoje vivemos mais um pico do caos gerado pela pandemia do COVID-19. Segundo entidades médicas, a obesidade é agravante da doença. Contudo, para gordos o problema é ainda mais letal, pois não há leitos que comportem nossos corpos, não há equipamentos que realizem exames em corpos como os nossos. Continuamos à margem do auxílio e do atendimento médico.

Vivenciando tudo isso, perguntamos: além de identificar e violentar o corpo gordo, existe alguma preocupação em dar assistência para essas pessoas, durante ou após a pandemia? A crise da Covid-19 representa apenas o retrato atual do descaso que nos acompanha há décadas, séculos. 

Neste 4 de março, o infame “Dia Mundial da Obesidade”, pedimos que questione o porquê de ninguém levar em consideração o que as próprias pessoas gordas sofrem, pensam e sentem ao serem associadas a adjetivos muitas vezes equivocados, principalmente como “doentes”. Precisamos nos opor à patologização dos corpos gordos. Já sabemos que a gordofobia mata muito mais do que a obesidade, mas seguem nos silenciando. Se atentem: pessoas gordas existem, resistem e nossas vidas não se resumem a um CID!

Curadoria do blog lute como uma gorda.

Referências para consulta:

Revista Mais que Amélias. DOSSIÊ ESPECIAL SOBRE GORDOFOBIA. União da Vitória – Pr: Universidade Estadual do Paraná, v. 8, 2021. Issn: 2358-758X. Disponível em: https://rstmaisqueamelias.wixsite.com/maisqueamelias/2021  

Rabacow FM, Azeredo CM, Rezende LF. Deaths Attributable to High Body Mass in Brazil. Prev Chronic Dis 2019;16:190143. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5888/pcd16.190143  

PAIM, Marina Bastos e KOVALESKI, Douglas Francisco. Análise das diretrizes brasileiras de obesidade: patologização do corpo gordo, abordagem focada na perda de peso e gordofobia. Saúde e Sociedade [online]. v.29, n.1, 2020. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/sausoc/2020.v29n1/e190227/# 

SILVA, Alan Camargo; FERREIRA, Jaqueline Teresinha. Gordura corporal: entre a patologização e a falência moral. Physis,  Rio de Janeiro ,  v. 23, n. 1, p. 289-296,    2013 .   Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312013000100017&lng=en&nrm=iso 

JIMENEZ-JIMENEZ, Maria Luisa. Gordofobia Médica: A reprodução do Estigma Social, 2018. (Blog/Facebook). Disponível em: http://www.todasfridas.com.br/2018/07/23/gordofobia-medica-a-reproducao-do-estigma-social/

JIMENEZ-JIMENEZ, Luisa, Maria. Lute como uma gorda: gordofobia, resistências e ativismos. 2020. Doutorado (Programa de Pós Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea – ECCO) – Faculdade de Comunicação e Artes da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Cuiabá, MT, Brasil. Disponível em: https://lutecomoumagorda.home.blog/tese-de-doutorado-lute-como-uma-gorda-gordofobias-resistencias-e-ativismos/

Rubino, F., Puhl, RM, Cummings, DE et al. Declaração conjunta de consenso internacional para acabar com o estigma da obesidade. Nat Med 26, 485-497 (2020). https://doi.org/10.1038/s41591-020-0803-x

Sean Wharton , David CW Lau , Michael Valli, et al.. Obesidade em adultos: uma diretriz de prática clínica. CMAJ 2020 August 4;192:E875-91. doi: 10.1503/cmaj. Disponivel em: https://www.cmaj.ca/content/192/31/E875

Publicado por LUTE COMO UMA GORDA

O Projeto Lute como uma Gorda, surgiu com a necessidade de levar para fora da academia a discussão sobre GORDOFOBIA e os Corpos Gordos femininos, essa ideia é uma extensão-ação, anexa ao espaço virtual (Istagram/Facebook), etapa importante das investigações de doutoramento da idealizadora do projeto. A questão de discussão central, de todas as ações deste projeto estará na provocação da reflexão sobre a estigmatização do corpo gordo feminino em sociedade e suas consequências. Como forma de chamamentos e provocações, para as questões da Gordofobia em nossa sociedade, desenvolvemos rodas de conversas, Workshops e Minicursos Temáticos; Assessoria para profissionais de diversas áreas, Distribuição de Cartilhas Informativas, Artigos, Redes Sociais, etc.

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